quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A proximidade de eventos, a distância do vento

A raiz sustenta a árvore. E me pergunto: seria então por isso que somos tão inconstantes? Afinal, somos um bando de sem raízes ocupando o mundo. Tornando-o... inconstante. Mas seria boa a Constância? Não sei. Prefiro o Antonio, o Pedro, o Mario, não o Romário, muito menos o Ronaldo.
Na parede de um precipício vive uma árvore. Na beira do precipício morre um tal ser humano. O vento faz farfalhar as folhas da árvore. No salão um ser humano desfaz a natureza - nenhum fio fora do lugar, por favor, uma pasta de silicone.
No final das contas, a árvore cresce na parede do precipício enquanto o vento faz farfalhar as folhas. Enquanto isso, o ser humano caminha até a beira do precipício. E pode escolher parar.
Ronny Leal

domingo, 20 de julho de 2008

Dia do amigo

Quero dizer algo sem dizer e assim tornar mais que nunca, o dito pelo não dito. Tenho minhas dúvidas se realmente um dia fui infeliz, mas é bem capaz que sim. Infeliz com toda a não sutileza de um tornado, enquanto era feliz como uma delicada brisa rouca. Pouco audível, pouco sensível, levemente percebível.
Notaria apenas as paredes brancas me sufocando, ao mesmo tempo em que pouco a pouco me pressionavam a sair, o que fazem novamente quando de novo me recolho. Sempre indevidamente.
O raio de sol bateu na parede e indignado deu meia-volta. “Como pode não me querer na sua pele, infeliz ser humano?” A pessoa pálida nem se quer deu ouvidos, mas a parede esquentou levemente. Foi quando uma gota de suor correu o rosto do infeliz ser humano. O infeliz ser humano pensou ser uma lágrima e foi a janela, para que o vento a secasse. Não havia vento. Apenas a brisa. A felicidade rouca pouco percebível que o fez sair.
Os raios de sol ficaram bastante surpresos com tamanha palidez finalmente dando as caras. E também assustados, porque por um instante seu emissor escondeu-se atrás de uma única e grande nuvem. Pouco a pouco, a nuvem deu passagem e os raios do sol permitiram-se cair,
ainda que trêmulos, sobre a pele do pálido ser humano. Foi o bronzear mais rápido da história. Empatia total.
Então o ser humano se acostuma. Acostuma-se com os raios de sol (1), com a brisa, cada dia menos rouca, com o horizonte. E assim, com a idéia de conhecer e descobrir, a vida faz sentido.

(1) Raios de sol. Lê-se: amigos.

Oferecimento:
Chocolate, que misturado as “coisas”, vira chocolate meio amargo, que é divino, delicioso e relaxa.
Ronny Leal

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Ou seja...

Devo ater-me em ser feliz ocorra nuvens pesadas ou finas nuvens brancas num céu de brigadeiro. Bem seria mais fácil se todos os dias fossem assim. Em meio ao verde e som de qualquer música. Qualquer. Sem música, a vida seria um erro. É mais que uma frase. É algo que qualquer coração realmente vivo sente. Algo ocorre ao redor que atinge o coração, não por ser mais sonoro, mas por casar com o ritmo do seu compasso. E o corpo sem passos certos, mas no caminho correto. Não reto.
Devo ater-me à tempestade apenas para lembrar minha sombra que é ela que me segue e de acordo com minha vontade. Se somente a luz ocorre de todas as direções, sombra, de que lado do piso você vai surgir?
Devo ater-me à verdade absoluta, que não é a verdade do mundo, essa utopia que criamos por medo de assumir ser quem somos. Se o que quero é brisa no rosto, trilhos no vale verde e outras cores, por que viajo em um avião, se azul pálido é só o que tem ao redor? Os pássaros seriam felizes? Ver o azul e outras cores mais.
Eu queria ser um pássaro. Para ter a chance de pousar.
Devo ater-me em ser menos reclamão e chato e ser mais gentil como sou no meu peito, debaixo de ossos, músculos, pele e panos. Medo de oferecer um chocolate para você repor as energias? Por que meninos não se abraçam e meninas se maquiam? Por que meninos se maquiam e meninas se abraçam? Mundo confuso.
Devo ater-me em ser somente aquilo que nasci para ser - e somente eu sei o que isso significa. É melhor provocar um terremoto por ser quem se é do que por ser... quem?
Devo ater-me da abstenção de qualquer valor literário. Se Paulo Coelho é o melhor escritor do Brasil, quem seria o pior? O otorrino que escreveu sobre cardiologia?
Devo ater-me aos amigos verdadeiros e não àqueles que se iludem com pessoas embrulhadas em moradas, seriam palacetes?
Devo ater-me aos amigos verdadeiros e não àqueles que não aceitam críticas. Meu bem, se o restante da sua agenda fosse mais sincera, você não teria motivos para chorar todos os dias. Melhor uma esponja e sabão no rosto que o piso de cimento. Melhor um amigo com uma esponja nas mãos que o mundo de concreto.
Devo ater-me em não me ater em nada, absolutamente nada, apenas em mim. Eu me vejo nos outros. Ater-me em mim.
Devo ater-me em entender que o nada que se perde, é o tudo que está por vir.
Ou seja, apenas em ser feliz.
Ronny Leal

sexta-feira, 16 de maio de 2008

AS PEQUENAS PALAVRAS DO AMAR (Ato 3)

ATO 3 - DESOLADO - OU SEM O SEU LADO!
Não sinto fome.
Não sinto sono.
Não quero ouvir música.
Quero choro.
Não cai lágrima.
Quero sobriedade.
Meu corpo está cansado.
Piso em nuvens.
Assim piso em ovos.
Escorrego. Bato a cabeça.
Deliro.
Sol caindo.
Principalmente não quero ouvir música.
Estou sem você do lado.
A preguiça seria muito boa ao seu lado.

Ronny Leal (désolé)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Bola de gude sem freio

Você se sente atraído pela paixão?
Ou pela emoção?
Eu sinto profunda ternura
Profundo gosto neste vazio
Não me pergunte como sinto
Apenas acredito... quando me permito

O problema da minha criança
Foi o ato sentido antes do tempo
(desejo precoce, desejo puxado)
O amor deixado de lado
O toque hoje tendo que se sobrepor ao medo

Não é um homem todos os homens do mundo

O amor que corre
Você é visto como um erro
Mas não posso ser feliz se não lhe assumir
Meu demônio é o ódio dessa criança
Que hoje precisa de colo

Como posso usar meu demônio no palco
Sem machucar minha sofrida criança?

Como posso ser um ator
Se tenho medo do meu demônio?

Como serei homem sem crescer?
Menino, você é bom e não me prenda
Está no meu colo e hoje quem sou lhe acolhe
O que eu sou lhe acolhe
Seja lá o que sou
Sou o que tenho
Sou minha ferramenta
Sou o medo e o ódio
Sou antes de tudo sangue jorrando
Eterno sangue de criança nos lençóis
E tudo isso eu posso fazer ser amor.

Ronny Leal Santos, 22 anos (na época), sabendo que o passado deve
ter o peso de uma bola de gude, e que coisas redondas e pequenas são difíceis de serem equilibradas. De qualquer forma, sei que o equilibrio
nunca será minha constante.

domingo, 27 de abril de 2008

AS PEQUENAS PALAVRAS DO AMAR (Ato 2)

ATO 2 - AMORA (e período insosso)

As crianças subiam todos os dias na grade que cercava a escola para pegá-las no pé. A amoreira ficava no parque ao lado da escola. E o ritual recreativo, crianças felizes por pegar amora no pé, se repetia todos os dias na hora do intervalo no pré. É claro que não havia amora ao alcance todos os dias, e eu tinha a impressão de ver algumas crianças preocupadas em deixar uma das pequenas recém-nascidas e verdes ali, para que nunca faltassem amoras.
Parecia divertida até mesmo a busca frustrada por amoras. O que importava não eram elas; era subir no gradil e pôr os braços para fora da escola. Porque havia galhos com amoras que pendiam para dentro do jardim, mas esses galhos não interessavam tanto, sendo rapidamente vencidos. O que interessava era esticar o braço para alcançar as amoras que estavam mais longe. A diversão, a conquista que cada dia se tornava mais difícil.
Eu acompanhava com os olhos, mas nunca subi no gradil em busca de amoras. Há alguns dias, em certo lugar, descobri uma amoreira junto ao muro e apanhei por curiosidade uma amora que estava no chão. Mas aquelas amoras do lado de fora do gradil eu nunca toquei.
Como eu nunca lhe toquei. Como as minhas mãos nunca chegaram perto das suas. E agora você está mais longe. Como as amoras no pé. Acaba de anoitecer e eu peço um raio de sol.

P.S.: Faltou curiosidade?

Ronny Leal