quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Um texto incompleto (23/01/14)...

Digitado no bloco de notas do celular enquanto caminhava pela Major Diogo, numa quinta de janeiro... 

Estranho isso
De rua no passo atrás deixar
Saber não encontrar
Teu passar
Encanto torto
No porto de mar doce
Não está
(...)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Dona Moça Loira da Luz e a vista que se tem

'Seja como for, a face guarda certa aflição, mas não olha pra baixo.'


Aquela moça loira, ali na parede do prédio da Luz, observa tudo e não muda a expressão. Nem parece fatigada com o calor, nem indignar-se: os trabalhadores de rua, pegos pela polícia, são postos de costas com as mãos na cabeça – enviados além-margem da beira social que já ocupam, não por opção – e revistados, apalpados, como se precisassem de revólver ou canivete para vender cortador de unha, escova de dente, barra de chocolate, garrafa d’água. Que se passa na cabeça dessa moça que não fica indignada? – Talvez, que mais vista é que cenas da Luz. Luz?


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Norte, Solo

Essa tua mania
de lágrimas sem fim,
dor sem partida,
que só fica,
ainda te sufoca a vida.
E já sabes teu fim.
A acudir,
desacudida;
desvario mundano.
Porque é tão imenso teu globo,
tanta gente teu mundo,
que perde na conta tu,
tão preterida de ti.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

No Chuveiro, na Cama e Calendário - Breves Impressões Fixas na Memória

 


Cena. Sob os olhos cerrados, ondas – a imensidão de mar que cabe à minha vista. O corpo parece ser ninado, num vai e vem sem fim – faz barulho na rocha, faz barulho na areia, é música em si mesma, a onda que se dissolve no mar.

As horas diferem do cotidiano, e não é que não passam – é que passam sem pressa de conta, a fazer de conta que dois e dois pode ser seis, por que não?

Calendário de 2014, sobre a mesa. Escolhi um com fotos, que me parecia menos frio que um calendário comum. Janeiro, Canoa Quebrada, Ceará – e canoas à beira-mar. Fevereiro, Elevador Lacerda, Bahia – e mar fazendo fundo aos prédios de Salvador. Março, Estação da Luz – e o azul céu de SP, nem sempre tão azul. Abril, Pão-de-açúcar, Rio de Janeiro – azul mar e embarcações. Maio, Ponte JK de Brasília e as ondas de concreto, marejo do Lago que não vai muito de cá pra lá, nem de lá pra cá. Junho, Jacaraípe, Espírito Santo; Julho, Igreja da Sé, Olinda, Pernambuco; Agosto, Praia do Gunga, Alagoas – benditas tantas águas no meu calendário, a fazer contornos em terras tão belas. Setembro, Praia de Boiçucanga, São Sebastião – e é ali tão perto, e é tão surpresa essa foto. Outubro, Canoa Quebrada, Ceará, Novembro das Cataratas do Iguaçu e Dezembro, Jenipabu, Rio Grande do Norte, em toda costa, norte-sul-norte, tem mar o bastante para histórias sem fim – e foto nenhuma é tão imensa quanto o cheiro, o som, o calor, o vento, o sol, a cor – pobre lápis de cor da infância, como era ingênuo em suas tentativas de imitar o mar em desenhos.

Demoro no chuveiro, deito e me reviro na cama, cansado e com sono, mas me reviro buscando ondas nos lençóis. De olhos fechados, elas são claras em minha mente - me esqueço do fim do banho, me esqueço da hora de acordar, viajo nas ondas que cabem em minha vista fechada, acariciando-me, lembranças cheias, mais que recortes do calendário. Sobre Camburizinho, sei que tão cedo não esqueço o mar.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

No sofá vermelho vintage da Tais, 7/1/14, 23h36min

É esse embaraço de aniversariar, sem saber dizer a nova idade o que será, e que talvez, nessa falta de saber, muito segue sob regência de nova numeração, porque é só isso, né?, passam números e o que de efetivo, vivido, vira experiência de vida? A gente sabe depois ou nunca se sabe, o que pós tudo isso, é fruto do pré-vivido, pós do pé-de-vida que segue esse aqui desabrochar, ramos e fios elétricos a cruzar, sempre a cruzar.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Adeus Bolonhesa

Eu gosto das decisões repentinas da vida. Três anos atrás, num segundo dia de novembro, decidi parar de comer carne. Ser vegetariano, é assim que se chama, mas deixarei o rótulo de lado por ser pequeno frente a decisão. Acordei e tomei meu café da manhã habitual. Era domingo e por isso o habitual tinha pão francês, mussarela e... mortadela. Foram as duas últimas fatias. Não sinto falta.
Tinha uma apresentação no teatro na qual não acreditava que me sairia bem. E não me saí nada bem. Caí num abismo de reflexões. Não morri. O abismo era cheio de travesseiros. Todos os travesseiros sob os quais eu escondi uma pergunta, uma insegurança e um desejo. Afundava com força e sob os travesseiros estavam os monstros que alimentavam meus pesadelos acumulados em vinte e três anos de noites mal dormidas. A viagem foi aconchegante. Os reencontros costumam ser um aconchego - desespero apenas quando sonho que parece nunca acontecer. Os sonhos continuavam brilhando e o medo que os acompanhavam não eram tão feios quanto se faziam ser; os monstros não eram tão difíceis de serem encarados de frente; e as inseguranças eram tão inseguras de si que aflitas se juntaram todas sob um mesmo travesseiro. Concluí que insegurança é coisa frígida que se esconde sob o travesseiro quando encarada, fica com medo do escuro e por isso nem procura a saída: vira pesadelo, que é coisa morta, que nunca acorda com o dia.
A viagem pelo abismo do Centro Próspero de Travesseiros e Monstros (CPTM) durou os trinta minutos da estação Barra Funda a estação Perus (casa). Quando desci já havia tomado algumas decisões - metas, objetivos da minha vida. Três das quais me lembro muito bem, porém quase todas exigiam um trabalho longo e árduo. Sobrava uma que para vir à tona carecia apenas de uma decisão. Era simples, bastava pôr em prática. Entrando em casa e indo direto a cozinha - como sempre, mas precisamente ao fogão -, vi o macarrão, já com o molho. Bolonhesa. Havia acabado de decidir nunca mais comer carne, coisa que sempre quis, mas parecia sempre tão complicada, 'Ah, estou pesquisando um cardápio alternativo'. Olhei para trás, onde ficava a mesa e sobre ela o saco de pão. Foram dois de uma vez - sem mortadela. Saco de pão profundamente alternativo. E assim tem sido. Sem faltas e sem desejos.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Cantada

Eu fico pensando nas canções de ninar todas as noites antes de dormir. Não as canto e elas também não me são cantadas. É uma canção do silêncio, a cintilar inocente em suas notas imaginárias, soando doce pela garganta afora, a garganta dessa neblina, moça da noite fria, que me gela a pele coberta de lã.
Eu fico cá com meus devaneios de sempre, a calejar mutações que podem me suceder e me ocorrem, mas não as que eu quero. Eu quero acordar tarde amanhã, depois do sol, mas minha manhã começa com a lua e tenho que aprender a amá-la, antes que ela me engula e eu a embriague com meu ser. Essa lua iria querer encostar-se ao sol e não sei quem venceria.
Eu fico cá com as consequências de acreditar tanto naquilo que me é forte ao coração e digo para eu mesmo ser verdade, mas sei das minhas imagens sem altares, flutuantes no horizonte das minhas visões. São cantadas e a vida parece disposta ao galanteio.