A FALTA
Passei o dia perdido sobre o que fazer, perdido sobre o que fazer primeiro, o que deixar para depois e me cansei de tanto nada fazer, perdido em ideias que não se concluem. Ontem não foi diferente, mas muito de ontem tem a ver com as coisas daqui de casa, essas coisas de sempre, de pai e mãe, das paredes e tudo que há dentro.
Hoje, quase cinco da tarde, tomo banho. Me visto com a mesma roupa que me vesti ontem pra sair e logo em seguida tirei porque decidi ficar, bebo café com pão e manteiga, carrego a bolsa de livro, agenda, carteira, garrafa d'água e os ingressos que comprei para ir ao teatro, pensando que a peça que veria seria uma - e ontem lendo a sinopse descobri que comprei os ingressos da peça errada que não parece nada interessante. Parece que Deus e Esperança também não irão, terão uma DR hoje.
Cinco e meia. Coloco comida para o meu cachorro e saio pela porta dos fundos. Atravesso o corredor, a porta da sala ficou aberta. Entro, tranco, volto para a porta de trás, destranco, saio e tranco de novo (não tenho a chave da porta da frente). Saio. Dois minutos andando, um carro de polícia, quatro policiais e três jovens. Um carro preto parado, os garotos de mãos para trás, talvez já algemados. Algumas pessoas olham pela janela, um outro carro de polícia passa devagar e sigo descendo essa ladeira infinita daqui de casa, Perus, esse bairro montanhoso. Se fosse na Itália seria um pequeno vilarejo de casas rústicas entre as colinas. Aqui é um bairro periférico de casas inacabadas, com uma vista muito bonita, mas sem cartões postais.
Cinco e quarenta e estou no ponto. Penso que a Fernanda pode estar num casamento chato - ela iria em um hoje, por isso não lhe comprei ingressos; certamente irá atender o telefone. Não atende. Espero o ônibus cinco minutos e começo a me perguntar o que estou fazendo ali, saindo de casa em cima da hora para ver uma peça chata quando tem uma muito melhor acontecendo perto do metrô Carrão. Se não dá para chegar no Anhangabaú, muito menos consigo chegar no Carrão. E se chegar no Anhangabaú, correndo, esbaforido para ver uma peça que não me parece boa... para que construir esse estresse? Pego a avenida no sentido contrário dos carros, entro na primeira rua, desço-a, passa o carro da polícia e pego o telefone para disfarçar - não que estivesse fugindo da polícia, mas às vezes quando alguém olha para mim pego o telefone e finjo que estou falando com outro alguém - e como a polícia sempre passa olhando... talvez tivessem olhado para o meu casaco de tecido quase vinil roxo que quase nunca lavo e minhas luvas de lã rasgadas e me achado estranho - se bem que acho que não olharam nada, mas não resisto e depois que o carro passa ainda continuo com o celular na orelha à toa (está frio, estava esquentando a orelha).
Chego em casa, um folheto de pizzaria. Subindo o escadão - esse bairro montanhoso! - havia pensando em pedir pizza e acho que é um sinal do destino sobre o meu jantar. Destranco as duas portas - a dos fundos e a da sala, onde meu cachorro estava dormindo no sofá. Subo as escadas, faço xixi e coloco o moletom e a camiseta que estava vestindo antes. Pego os ingressos na bolsa, rasgo, coloco no saco de coisas que tenho jogado fora e está atrás da porta. Penso que nos conhecemos - assim, de sentar e conversar, além de nos ver - num dia em que eu tinha acabado perder o horário de uma peça no CCBB para a qual tinha comprado ingresso uma semana antes. Agora escrevendo, lembro de alguns pensamentos que tive nesse dia e me perco de novo sobre essas coisas de tempo.
São seis horas e trinta e oito. Termino este texto e estou ligando na pizzaria.
domingo, 20 de julho de 2014
sábado, 12 de julho de 2014
Perto de dormir
Hoje, danço
no frio, agasalho
em mim, You Tube
Meredith Brooks, Mazzy Star
Bitch,
Fade Into You, frio
E me banho - luz, ilusão!
Néon, lâmpada
no quarto.
no frio, agasalho
em mim, You Tube
Meredith Brooks, Mazzy Star
Bitch,
Fade Into You, frio
E me banho - luz, ilusão!
Néon, lâmpada
no quarto.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Que Não Lhe Conto (27/06/14)
HOJE CARREGUEI COUVE
Hoje fui à feira pedir couve para os animais da ONG. Peguei duas caixas de papelão, não muito grandes e as enchi, com folhas de couve e brócolis em ramos tão bonitos quanto os postos sobre a banca à venda já na xepa - que bela salada no lixo.
Desci - antes subira - toda a Consolação até a General Jardim. Pensei em encostar na mureta do cemitério para descansar, mas concentrei-me em um exercício de conscientização corporal, caminhando sem parar para descanso, procurando meus apoios internos que maior conforto me davam (procurar confortos internos não é deixar de sentir a dor de carregar as caixas, é procurar uma forma menos dolorida de carregá-las).
Na ONG, guardei couve e brócolis em ramos na geladeira, bebi um copo de Pepsi - lembrei da amiga no apê e sua não-relação com a Coca-Cola - e fui embora, pensando que frango, galo, coelho e chinchilas teriam um fim de semana feliz e com muita verdura para comer.
terça-feira, 1 de julho de 2014
Ontem Nick Assistia TV e Hoje Uma Chinchila Morreu
O pão que o distrai, ele, meu cachorro, Nick, não lhe faz
pôr o nariz a farejo, nem correr com o olhar para mim, para o pão, que mergulho
no café com leite. Não levo o pão a boca e este, molhado, meio mole, cai sobre
o prato – ‘sorte, usei prato!’
Na TV, o trabalho da carrocinha, o menino chorando pelo
cachorro apanhado, ‘ele terá grandes chances de ser adotado’ – diz o homem da
carrocinha, o pit bull abandonado, ninguém leva os pit bulls, a venda dos pugs,
yorkshires, valores de joias, e os outros, ali, três dias esperando alguém.
Nick assiste a TV. Nem presta atenção no pão caído no prato,
nem focinho funciona. Na face canina que não é de expressões, olhinhos meio
perdidos na tela da TV. Será que entende?
Hoje, limpando o cantinho das chinchilas no trabalho, ‘cadê
elas que não saem?’, nem colocam o rabo pra fora da toca improvisada, caixa de
relógio d’água. Abro a caixa. As três irmãs chinchilas agora são duas. A mais
velha, Stella, estava caída, fria, e as outras duas, Florence, Ane, de um
canto, olhavam.
domingo, 29 de junho de 2014
Que Não Lhe Conto (26/06/14)
ELE NÃO MORREU!
Pensei em contar, mas está no Google, que ele foi de novo internado; sua mulher diz que está bem. Deve ser o Colesterol que ele enfiava no sobrenome do seu personagem (riso meu das lembranças do programa humorístico que passava na TV antes do jornal e eu assistia tomando sopa e comendo sanduíche).
Aí entre contar e descontar, numa conta que não se sabe mais a positividade ou a negatividade do saldo, segui no silêncio.
Pensei em contar, mas está no Google, que ele foi de novo internado; sua mulher diz que está bem. Deve ser o Colesterol que ele enfiava no sobrenome do seu personagem (riso meu das lembranças do programa humorístico que passava na TV antes do jornal e eu assistia tomando sopa e comendo sanduíche).
Aí entre contar e descontar, numa conta que não se sabe mais a positividade ou a negatividade do saldo, segui no silêncio.
terça-feira, 20 de maio de 2014
POP - ou Fragmento Solidão
PROCEDIMENTO
OPERACIONAL PADRONIZADO
-------------------------------------------------------------------------
ou
Fragmento
Solidão
-----------------------------
Redator:
Ronny Leal
Item 1, sobre o OBJETIVO
Estabelecer lúcido entendimento de amor
romântico, happy end, ou assegurar sobrevivência.
Item 2. DOCUMENTAÇÃO
TOMADA COMO REFERÊNCIA, PRINCÍPIO. LEIS IMUTÁVEIS, DE ORIGEM DESCONHECIDA,
INERENTE A TODO SER HUMANO. PRINCÍPIO. INERÊNCIA. VIDA.
Resolução número 10.481, de 18 de setembro
de 2013.
Dispõe sobre regulamento que
organiza e viabiliza a aplicação de princípios técnicos ao reconhecimento de
sentimento romântico ou de profunda ternura, a cautelosa imersão e o não
ferimento daquele a qual o sentimento pertence. A resolutiva, no entanto, é
revogada diariamente.
3. O item 3. CAMPOS DE
APLICAÇÃO
Área do corpo (Além físico)
Coração (Além
cardíaco)
Olhos (d’alma)
Tato (Gesto)
Direção (Incerta)
4. DEFINIÇÕES
Par – Dois. Em conluio de
causas sentimentais. Não se aplica a suprir carências e qualquer outra
infantilidade do gênero.
Reticências – sugerem brusca
interrupção, inesperada, casual. Inesquecível. Consequências... Sou
transformado.
OS RESPONSÁVEIS. Item 5
Deus,
que diz que agora sim,
quando o encontro vai além da matéria, que sim, agora, nem céu nem
terra separa. Era o que estava na página 59, aberta
aleatoriamente.
Cupido,
que certamente nunca foi
homem, porque se um dia fora, nunca um dia atiraria sua flecha.
Eu,
Que ainda me permito o amor sem
antes ao menos a minuta de reciprocidade.
Você...
1ª EMENTA
CASUAL!
Pois é assim, num simples
você, que rompo a quarta parede. E desaba a água da barragem, sobre cidade, luz
se apaga, TV se cala, trem para.
6. OS FATOS. OU
RELATOS.
- É imagética
essa substância toda que se coloca como essencial, que até ontem não havia, devaneio sem
parada, chuva em trânsito, diz Acusação.
- Sendo assim,
invento uma alegoria para guardar a chuva e encolher a trama de sentimentos
avessos a uma vida feliz em par, diz Defesa.
Subitem 6.1. SOBRE OUVIR
Fundamento do diálogo, me
calo.
Porque você precisa falar e
fala verdades que te afogam.
Prazer, sou o homem
guarda-chuva. Deságua que de benta nossa água não tem nada.
Se bem que bom seria
santificar a calma e enfiá-la em ti, sem licenças.
E tento em
vão, licenças.
O subitem 6.2 É SOBRE
ACASOS E TATO
É quando a luz apaga, o
outro confesso...
Que outro?
O de quem fala, um outro que
só fala. É assim que a luz se apaga que se aninha no meu peito, eu
tomado, sobressaltado, esse acaso encontro não agendado...
Um:
Que horas acaba sua aula?
Outro Um:
Nove.
... E eu que
estava ali pra te fazer fogueira, sou aquecido por teu calor.
Um:
Sou calorento.
Subitem 6.3. SOBRE
VOLTAR, OU AÇÃO CORRETIVA, OU TORPEDO SMS
‘Aí eu passo uma incrível
noite na casa... Aceito estar com ele... É como um
sonho. Ele – a menor intensidade. Sou louco ou idiota?’
7. EMENTAS MANIQUEÍSTAS
JUIZ:
O quê? Quando?
RELATOR:
Diálogos ocorridos ao acaso,
em dias não agendados, sem prévio aviso, graves consequências.
JUIZ:
Como?
REDATOR:
Um contínuo afogamento de
algo que vai além do cardíaco - mas sabe-se que ocorre por ali.
JUIZ:
Bom ou ruim?
RELATOR:
Não há resposta.
Item 8. A REVOGAÇÃO
RELATOR:
Deus, que diz que agora sim, quando o encontro vai além da matéria, que sim, agora, nem céu nem
terra separa. Era o que estava na página 59, aberta
aleatoriamente.
JUIZ:
Prendam quem disse isso!
RELATOR:
Cupido, que certamente nunca foi
homem, porque se um dia fora, nunca um dia atiraria sua flecha.
JUIZ:
Prendam esse atirador de
flechas. Chega! Revogado!
RELATOR:
Redator, que reconhece os calos das mãos
tocadas uma única vez anos atrás.
JUIZ:
Revogado! Está revogado o amor!
RELATOR:
Meritíssimo?
9. REGISTROS
A Certidão de Casamento
certifica uma feliz união entre dois, prevendo a comunhão dos corpos.
Mas só destes, porque também já certifica a comunhão de bens.
ÚLTIMA EMENTA...
Foi encontrado na piscina de
areia do parque um coração ensanguentado. Uma criança o achou e saiu atirando-o para cima,
pelo direito de errar. E quem sem ele ficou continuou por aí atrás de errar.
... CASUAL!
A japonesa de quimono,
tola, sempre caminha um passo atrás do companheiro.
10. DOS ANEXOS (10.481 DIAS
DEPOIS)
E lido o regulamento,
apoiado em lei, tão absurdo na generalização do amor, coisa de todos, coisa tão
individual, ouvem-se gritos de protesto.
‘Por que de lancha e não de nau? Se
perca sem pressa. Fico aqui, ilha perdida à deriva.’
‘Massa não é coletivo.
Coletivo é grupo de muitos.’
‘Dez mil. Somos dez mil!’
‘Massa é uma coisa só.’
‘Coletivo. Um mais Um. Dois.’
‘Dez mil quatrocentos e oitenta e um
dias, até aqui, 18 de setembro.’
‘Thiago, você está me
ouvindo?’
‘Thiago, você está me
ouvindo?’
(...)
domingo, 4 de maio de 2014
É rosa, o laço de fita
Ela:
Não tem devolução.
Ele:
Vamos ter que ficar com esse mesmo?
Ela:
A gente pode tentar a sua tia. Talvez ela fique com
ele.
Ele:
Mas com esse defeito, será que ela vai querer?
Ela:
A gente não quer. Devolver não dá. Temos que achar
quem queira. Não posso perder meu tempo cuidando de algo de gênero?
Ele:
Que gênero?
Ela, cruzando o tempo, cai deitada na cama.
Ele:
Você está bem?
Ela:
Acabo de abortar e você me pergunta se estou bem?
Ele:
Não podemos tentar de novo. O médico disse que no
seu caso, é arriscado.
Ela:
Quero um filho.
Ele e Ela cruzam o tempo e bailam a valsa do
casamento. O riso é algo frouxo que se desprende sem medos. Caem sentados em
novo tempo.
Ele:
Queremos um filho!
Ela:
Sim, um filho.
Ele:
Uma família!
Ela:
Sim é ele. É este que eu quero. Vamos adotá-lo.
E o tempo deles se esvai.
Off, a babá
dos órfãos:
Menino corre
com fita rosa ao vento.
É pipa, o
cetim rosa.
A vida então
enforca.
E criança faz
do laço enfeite para o cabelo.
‘Faz forca,
menino, faz forca e se destroça.’
Ele:
Seria mais fácil.
Ela:
Não seja rude. É só um menino. Não o quero mais
aqui, mas também não quero que ele sofra.
Ele:
Não tenho estrutura...
Ela:
Exato, não temos estrutura. Não entendo dessas
coisas de gente que é o que não é. Se a gente colocar algo no suco dele e
deixar na porta do orfanato...?
Ele:
É um adolescente, ele saberia dizer quem somos,
onde é nossa casa...
Ela:
Mas que inferno, por que não tinha isso na ficha
dele?
Ele:
Fale baixo, ele está no quarto. Não é mais nosso
filho, mas não vamos deixá-lo traumatizado. Vamos devolver de maneira indolor.
Vou procurar um advogado.
Off, a babá
dos órfãos:
E assim cai teto
E cai parede
Os móveis ficam
ao relento
E nem mais
móveis
E nem pais
E nem chão
Só... na
prateleira.
SAC:
Qual a queixa, senhor? Sim, o menino tem um laço de
fita rosa preso à cabeça. Desculpa, senhor, mas quando o adquiriu, o laço de
fita já estava em sua cabeça? Porque só podemos responder por problemas de
origem... O senhor considera um problema de origem, entendo. Já tentou tirar o
laço? Ah, sim, o menino já virou motivo de chacota, entendo? Sim, podemos
efetuar a troca, mas não podemos garantir que o próximo filho não vá querer em
determinado momento colocar um laço de fita cor-de-rosa na cabeça, ou vestidos.
Ah, quer trocar por uma menina. Entendo, mas as garantias são as mesmas.
Off, a babá
dos órfãos:
Futuros
papais e mamães.
Caminham
entre as prateleiras.
A sua vista,
pacotes perfeitos
- e veja só,
ressoa um coração.
Mas lá
embaixo, na última prateleira,
Onde o pacote
com remendos
Guarda o
menino com laço de fita no cabelo.
‘Atenção,
consumidores, futuros pais da nação. Promoção do dia. Corram aos corredores de
meninos adolescentes. Todos os artigos seminovos estão com cinquenta por cento
de desconto.’
Baseado na notícia:
http://acapa.virgula.uol.com.br/politica/adolescente-e-devolvido-para-orfanato-por-pais-adotivos-por-ser-homossexual/2/13/23888
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