quarta-feira, 12 de março de 2014

Desafloro

Hoje o jardim amanheceu com as flores no chão. Não as varri porque espero novas flores - e que as flores de ontem virem adubo das futuras.

Hoje o jardim é todo verde grama, e verde não deixa de ser esperança, mesmo quando corpos então coloridos, secam-murcham, nesse jardim que meus sonhos fazem florir. Mas essa onda de causar dor, mesmo quando se põe tão claro o que pode ser dor, e mesmo assim querer ferir, fazem secar a rosa de espinhos no centro do jardim. E então são iguais, espinho e rosa, rosa e espinho.

Coisas, não coisa só.

Nem flor de espinhos, nem espinhos da flor.

Nem dor, nem desaforo. Desaflor.


Espero-te novamente rosa com espinhos, a ser a primeira flor do novo - das coisas antigas – jardim.

Hoje 12.03.14

Sob toneladas,
dando passos aos pés.
Cambaleio.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Um texto incompleto (23/01/14)...

Digitado no bloco de notas do celular enquanto caminhava pela Major Diogo, numa quinta de janeiro... 

Estranho isso
De rua no passo atrás deixar
Saber não encontrar
Teu passar
Encanto torto
No porto de mar doce
Não está
(...)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Dona Moça Loira da Luz e a vista que se tem

'Seja como for, a face guarda certa aflição, mas não olha pra baixo.'


Aquela moça loira, ali na parede do prédio da Luz, observa tudo e não muda a expressão. Nem parece fatigada com o calor, nem indignar-se: os trabalhadores de rua, pegos pela polícia, são postos de costas com as mãos na cabeça – enviados além-margem da beira social que já ocupam, não por opção – e revistados, apalpados, como se precisassem de revólver ou canivete para vender cortador de unha, escova de dente, barra de chocolate, garrafa d’água. Que se passa na cabeça dessa moça que não fica indignada? – Talvez, que mais vista é que cenas da Luz. Luz?


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Norte, Solo

Essa tua mania
de lágrimas sem fim,
dor sem partida,
que só fica,
ainda te sufoca a vida.
E já sabes teu fim.
A acudir,
desacudida;
desvario mundano.
Porque é tão imenso teu globo,
tanta gente teu mundo,
que perde na conta tu,
tão preterida de ti.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

No Chuveiro, na Cama e Calendário - Breves Impressões Fixas na Memória

 


Cena. Sob os olhos cerrados, ondas – a imensidão de mar que cabe à minha vista. O corpo parece ser ninado, num vai e vem sem fim – faz barulho na rocha, faz barulho na areia, é música em si mesma, a onda que se dissolve no mar.

As horas diferem do cotidiano, e não é que não passam – é que passam sem pressa de conta, a fazer de conta que dois e dois pode ser seis, por que não?

Calendário de 2014, sobre a mesa. Escolhi um com fotos, que me parecia menos frio que um calendário comum. Janeiro, Canoa Quebrada, Ceará – e canoas à beira-mar. Fevereiro, Elevador Lacerda, Bahia – e mar fazendo fundo aos prédios de Salvador. Março, Estação da Luz – e o azul céu de SP, nem sempre tão azul. Abril, Pão-de-açúcar, Rio de Janeiro – azul mar e embarcações. Maio, Ponte JK de Brasília e as ondas de concreto, marejo do Lago que não vai muito de cá pra lá, nem de lá pra cá. Junho, Jacaraípe, Espírito Santo; Julho, Igreja da Sé, Olinda, Pernambuco; Agosto, Praia do Gunga, Alagoas – benditas tantas águas no meu calendário, a fazer contornos em terras tão belas. Setembro, Praia de Boiçucanga, São Sebastião – e é ali tão perto, e é tão surpresa essa foto. Outubro, Canoa Quebrada, Ceará, Novembro das Cataratas do Iguaçu e Dezembro, Jenipabu, Rio Grande do Norte, em toda costa, norte-sul-norte, tem mar o bastante para histórias sem fim – e foto nenhuma é tão imensa quanto o cheiro, o som, o calor, o vento, o sol, a cor – pobre lápis de cor da infância, como era ingênuo em suas tentativas de imitar o mar em desenhos.

Demoro no chuveiro, deito e me reviro na cama, cansado e com sono, mas me reviro buscando ondas nos lençóis. De olhos fechados, elas são claras em minha mente - me esqueço do fim do banho, me esqueço da hora de acordar, viajo nas ondas que cabem em minha vista fechada, acariciando-me, lembranças cheias, mais que recortes do calendário. Sobre Camburizinho, sei que tão cedo não esqueço o mar.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

No sofá vermelho vintage da Tais, 7/1/14, 23h36min

É esse embaraço de aniversariar, sem saber dizer a nova idade o que será, e que talvez, nessa falta de saber, muito segue sob regência de nova numeração, porque é só isso, né?, passam números e o que de efetivo, vivido, vira experiência de vida? A gente sabe depois ou nunca se sabe, o que pós tudo isso, é fruto do pré-vivido, pós do pé-de-vida que segue esse aqui desabrochar, ramos e fios elétricos a cruzar, sempre a cruzar.